Auto-sabotagem e emagrecimento

“Há uma vitória e uma derrota – a maior e a melhor das vitórias, a mais baixa e pior das derrotas -, que cada homem conquista ou sofre não pelas mãos dos outros, mas pelas próprias mãos.” Platão

Todos sabemos que perder peso para chegar a um peso saudável é um trabalho árduo, que envolve dedicação, tempo, disposição para mudanças e planejamento. E se eu te dissesse que, na grande maioria das vezes, não somos capazes de alcançar ou manter os resultados almejados por pura auto-sabotagem?

A auto-sabotagem geralmente se manifesta por ciclos negativos de repetição, com ações que contrariam o que a pessoa deseja para si ou que destroem realizações e conquistas positivas. Ela pode ocorrer não só em um plano de emagrecimento mas também na carreira profissional, nas relações afetivas, no gerenciamento do próprio tempo...

Algumas pessoas não conseguem se imaginar enfrentando certos desafios e, quando conseguem, são incapazes de acreditar no seu sucesso ou simplesmente desqualificam sua participação nos resultados. O grande problema é que muitos de nós, sem percebermos, temos muito mais ganhos nos mantendo como estamos – nesse caso, acima do peso – do que partindo para a mudança. Na verdade, não gostamos do modo como as coisas estão mas a perspectiva de causar algum transtorno na nossa estabilidade ou afetar nossa zona de conforto é muito assustadora.

Segundo o psicanalista Flávio Gikovate “quando nos aproximamos muito de um estado vivenciado como sendo de plenitude, de que não nos falta nada, passamos a experimentar um medo difuso, a viver uma sensação de ameaça e de riscos iminentes. Parece que alguma grande tragédia passa a nos rondar e, a qualquer momento, nos alcançará. O estado de pânico e pavor pode ser tal que não conseguimos vislumbrar outra saída a não ser destruir aquilo que está provocando a felicidade e também o medo.” Esta situação de plenitude ocorre frequentemente quando se atinge o tão desejado peso ideal. Quem nunca viu alguém ou a si mesmo chegando à sua meta de peso e depois engordando tudo de novo?

Em muitos casos, parte do conflito reside na necessidade de estar no comando, no desejo de ser livre para comer o que quiser e de ser capaz de ignorar a balança. Porém ser livre para comer pode significar agredir a própria saúde ou não ser livre para vestir o que quiser, por exemplo. Podemos ignorar a balança mas não conseguimos ignorar o espelho, a falta de agilidade, o sentimento de inadequação ou as limitações do excesso de peso. A maioria das pessoas não está satisfeita com o sobrepeso e sabe que ele é destrutivo para a saúde e para a sua imagem. Mas, ao invés de fazer uma mudança no comportamento, nos pensamentos e em suas crenças, passam um grande tempo tentando perder peso para depois recuperá-lo novamente.

Manter-se acima do peso pode ser uma maneira disfuncional de evitar ou compensar algum problema emocional. E a forma que a pessoa encontra para resolvê-lo ou até mesmo tentar enfrentá-lo, ainda que inconscientemente, é através da ingestão de alimentos. Porém, é importante saber que as suas necessidades (exceto uma fome real) não serão satisfeitas através da comida. Neste caso, a sensação de liberdade, de ser grande e forte ou até mesmo de estar “protegido” por uma camada de gordura é sempre ilusória.

Portanto, o primeiro passo é reconhecer que emagrecer vai muito além da restrição calórica e da prática regular de atividade física. É preciso identificar os fatores emocionais que levam uma pessoa a um comportamento alimentar compulsivo e aprender a reconhecer os ciclos negativos de repetição. Só assim poderemos começar a neutralizar o sorrateiro e perigoso inimigo da auto-sabotagem.